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maio 23

Efeito cebola

Estava lá eu, naquela manhã especial, o batom carmim sorria para mim e nada mais poderia ser melhor. O riso franco e maroto, naquela face amiga, confidenciava-me tudo sem dizer nada, nem era preciso muito menos possível, pois que as nossas palavras são pobres e inadequadas e inexpressivas e vazias diante daquele sorriso carmim, que sem que ela quizesse, ou que pudesse evitar, fazia minha manhã toda se iluminar.

E quando eu era garoto, ainda agorinha a pouco, eu cria que num belo dia, numa manhã fria e chuvosa, você enfim viria toda radiosa, sorrindo para mim.

Mas nessas coisas estranhas que saltam de nossas entranhas e criam-se em vida própria, tua história é uma outra e a minha tão pouca que nem me atrevo a sonhar, caminho contigo em desalinho com teu querer. Mas a vida mesmo controversa em rimas estrofes e promessas, de novas manhãs frias e chuvosas, de novas e velhas lembranças de que um dia tudo de novo há de ser e novamente reaparecer no meu horizonte perdido.

E assim de camada e em camada, vou me desmanchando, como quem desmancha cebolas, cercado de coisas tolas, que me fazem chorar, procuro no centro de tudo a essência que enfim não há, termino de a descascar e ao final e adentro nada na cebola há que me faça melhor.

O que me faz melhor é essa procura de mim mesmo, de camada em camada e cercado de coisas tolas, como as meras cebolas, caminho por mim mesmo, as vezes em rumo certo, as vezes a esmo, tateio na escuridão de minha cegueira, sempre e infinitamente a beira do meu abismo. E cada manhã chuvosa pode ser maravilhosa se temos um sorriso amigo.

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